Criança pequena comendo na tigela com garfo, usando o eixo cérebro-coração

Dra. Denise Brasileiro

Já percebeu que, quando estamos apaixonados, sentimos as famosas “borboletas no estômago”? Ou então quando ficamos extremamente nervosos e ansiosos antes de passarmos por uma situação desafiadora e, poucos minutos antes, ficamos com dor de barriga e até mesmo diarreia?

Isso acontece porque nosso cérebro e intestino estão em contato constante. Pois é. Eles simplesmente trocam informações sobre a quantidade de nutrientes que temos em nosso organismo (e se eles são suficientes para mantê-lo saudável), se nosso sistema imunológico está em pleno funcionamento e por aí vai.

Essa comunicação ocorre por meio do nervo vago, que conecta o cérebro à região do abdômen, ramificando-se em alguns órgãos como, por exemplo, o estômago e o intestino.

O sistema nervoso entérico (SNE) e sua conexão com o cérebro

Ao se ramificar na região abdominal, o nervo vago dá origem ao sistema nervoso entérico (SNE), também conhecido como “o segundo cérebro”. Somente nele, temos cerca de 500 milhões de neurônios que estão presentes em todo o sistema digestivo.

O SNE e o cérebro, apesar de possuírem “funções distintas” e funcionarem de forma independente, permanecem sempre em comunicação.

Um breve exemplo é o seguinte: quando o estômago está vazio, o sistema nervoso entérico estimula a produção de um hormônio chamado grelina. Este, por sua vez, age em nosso cérebro produzindo a sensação de fome. Após a refeição, o estômago, já cheio, produz outro hormônio, a peptina, que atua no cérebro e produz a sensação de saciedade. Legal, né?

Mesmo assim, antes de saber isso, você provavelmente já reparou que seu sistema digestivo e seu cérebro se comunicam. Afinal, quem nunca ficou de bom humor depois de ter comido uma bela refeição, ou sentiu uma vontade imensa de comer doces ou alimentos calóricos em situação de estresse?

O eixo cérebro-intestino

Toda essa troca de informações é chamada de eixo cérebro-intestino. Décadas de estudos vêm demonstrando que as ações dos neurônios do SNE podem ser afetadas diretamente por eventos no ambiente intestinal, incluindo as atividades da microbiota.

A microbiota

Você sabia que existem trilhões de micróbios dentro de você nesse exato momento? Bem, não se assuste com essa informação. Na verdade, estes pequenos formam uma comunidade dentro do seu organismo chamada microbiota.

O conjunto de bactérias que vive dentro do seu intestino se chama microbiota intestinal, e sim, pode acreditar: ela influencia diretamente na sua saúde.

O que pode não ser tão óbvio assim é que a microbiota pode afetar o seu cérebro. Durante muito tempo, inclusive, cientistas costumavam pensar que isso era impossível, por isso, não sinta como se estivesse “isolada do mundo”, ou algo do tipo.

Para se ter ideia, foi somente em 2004 que um estudo, realizado por cientistas da Universidade Kyushu (Japão), descobriu que a exposição a certos tipos de micróbios pode afetar drasticamente o cérebro. Funcionou assim: um grupo de ratos livres de germes foi colocado em uma gaiola extremamente limpa, de forma que estes fossem minimamente expostos a quaisquer tipos de micróbios. Enquanto isso, outro grupo de ratos foi mantido intacto.

Quando expostos a uma situação de estresse, ambos os grupos responderam a ela da forma como deveriam, porém, o conjunto de ratos livres de micróbios teve uma reação muito mais exagerada e sofrida do que aqueles que possuíam a microbiota normal.

Logo, percebeu-se que algo nos ratos que possuíam suas bactérias intactas estava ajudando-os a manterem seus níveis de estresse normais. Enquanto isso, o cérebro do time de ratos que estavam livres de bactérias tinha menos quantidade de uma proteína chamada Fator Neurotrófico Derivado do Cérebro (Brain-derived neurotrophic factor – BDNF). Interessante, né?

A título de curiosidade, a BDNF é importante para o aprendizado, a memória e pensamentos de ordem superior.

Porém, a dúvida que não quer calar é: esse resultado poderia ser percebido em humanos?

Sim. A verdade é que, enquanto estamos conversando sobre esse assunto, uma guerra entre boas e más bactérias está acontecendo no seu intestino. O vencedor dessa batalha faz toda a diferença para o seu organismo. Afinal, ele consegue afetar tudo no seu sistema, desde o seu humor até os níveis de obesidade.

Acontece que as bactérias interferem em todas as interações químicas que acontecem no seu SNE que, por sua vez, pode influenciar todo o resto do seu organismo. Afinal, ele se conecta com o cérebro, lembra?

Então, a alta concentração de bactérias nocivas ao organismo pode, por exemplo, causar um desequilíbrio que resulta em problemas muito comuns como depressão, ansiedade etc.

E como podemos fazer as “bactérias boas” vencerem essa batalha?

Assim como você precisa dessas bactérias para ficar bem, acredite, elas também precisam de você. Na verdade, elas devem ser alimentadas do jeito certo, e isso nos leva, inclusive, a um fato muito conhecido por todos nós: você é aquilo que come.

Em outras palavras, a comida que você “coloca para dentro” fortalece o crescimento de um dos tipos de bactérias (boas x ruins). Os alimentos que beneficiam a saúde intestinal são os prebióticos e o probióticos.

O que são prebióticos?

Os alimentos prebióticos contém fibras que não são digeridas ou absorvidas no trato gastrointestinal, servem de alimento para as bactérias que habitam o intestino.

Alguns exemplos são:

  • frutas e vegetais crus, especialmente alho poró, aspargos, banana verde, maçã, chicória, alho e cebola;
  • cereais como aveia, farelo de trigo, cevada e centeio;
  • leguminosas como a soja e o grão de bico;
  • sementes como a linhaça.

O que são probióticos?

Os probióticos nada mais são que bactérias e leveduras boas para o seu sistema digestivo.

Existem vários tipos de alimentos classificados como probióticos. Eles contém bactérias de dois grupos principais:

Lactobacillus: é o mais comum. Pode ser encontrado em iogurtes e outros alimentos fermentados.
Bifidobacterium: encontrada em produtos como o kefir, kombucha etc.

Se você quiser saber mais sobre os prebióticos e probióticos, basta clicar aqui!

A influência da microbiota intestinal no desenvolvimento e função cerebral do bebê

Os três primeiros anos de vida do pequeno podem representar o período mais crítico para intervenções alimentares direcionadas à microbiota. Afinal, como já explicamos, sua contribuição para a saúde é inquestionável e, consequentemente, para melhorar o crescimento e o desenvolvimento do cérebro também.

Acontece que, durante esse período, a formação da colonização intestinal de bactérias (e, consequentemente, da microbiota) coincide com os períodos críticos do desenvolvimento do nosso sistema nervoso. Essas mudanças fisiológicas levam a um estado estável para nossa microbiota e à consolidação de redes neurais durante a primeira infância.

Diversos estudos comprovam que a boa colonização microbiana no início da vida afeta o desenvolvimento do cérebro nos seguintes aspectos:

  • regulação da barreira intestinal: impede que as bactérias nocivas, presentes no intestino, espalhem-se para o resto do organismo;
  • regulação da barreira hematoencefálica: bloqueia o acesso de bactérias e substâncias nocivas ao sistema nervoso central;
  • regulação hormonal e neural através do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal.

E como fortalecer, então, a microbiota intestinal dos recém-nascidos?

Depois de tudo o que vimos, faz sentido querer que o pequeno já venha ao mundo com uma microbiota intestinal mais fortalecida, não é mesmo? Pois bem, saiba que isso é possível por meio da dieta materna.

A mãe, durante a gestação e amamentação, deve acrescentar à sua alimentação os seguintes componentes:

ácidos graxos poliinsaturados ômega-3 (a maioria é encontrada em peixes e outros frutos do mar);
prebióticos e probióticos.

Depois, é só introduzir, no momento certo, os alimentos que o bebê precisa para ter uma microbiota incrível!

Enfim…

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