Garota adolescente com semblante triste sentada na escada segurando dois fichários e uma apostila

Dr. Francisco Machado

A juventude é um momento único e desafiante da vida. Embora a maioria dos jovens tenha boa saúde mental na adolescência, várias mudanças físicas e sociais podem torná-los ainda mais vulneráveis ​​aos problemas de cunho emocional.

O uso do “ainda”, na última frase do parágrafo acima, é proposital. Ocorre que as razões pelas quais um jovem se torna vulnerável a distúrbios psicológicos como ansiedade, depressão e estresse tóxico vão muito mais além do que os famosos “perigos e avanços da internet”.

Ocorre que o cérebro humano, na puberdade, ainda se encontra em processo de formação. Isso explica, inclusive de forma científica, por que o adolescente, ao contrário de um adulto típico, costuma ser tão impulsivo, irritado e passional com as questões da vida. Faz parte do processo.

Pensando nisso, nosso objetivo hoje é conversar um pouco mais sobre a saúde mental na adolescência. Afinal: como ela funciona? Quais são os distúrbios psiquiátricos mais comuns durante essa fase da vida, e o quê fazer para tratá-los?

Bem, só há um jeito de descobrir. Continue conosco e vamos lá!

Os fatores determinantes da saúde mental na adolescência

A adolescência é um período crucial da vida. Afinal, é nela que o jovem costuma aprender a:

  • ter noção do próprio corpo e do motivo pelo qual é preciso cuidar dele;
  • desenvolver e manter hábitos sociais e emocionais importantes para o bem-estar mental (como dormir bem, socializar-se, praticar exercícios, manter uma dieta saudável, preservar as amizades etc);
  • descobrir, por conta própria, como resolver seus problemas interpessoais e gerenciar suas emoções;
  • assumir algumas responsabilidades próprias da idade;
  • entre outros.

Tendo estes tópicos em vista, e adicionando uma pitada de descobertas sexuais, chuva de hormônios, mudanças sociais e corporais, pressão de todos os lados etc, não é difícil imaginar por que os adolescentes estão mais suscetíveis a adquirirem distúrbios emocionais.

Contudo, para além destes aspectos próprios da idade, ainda existe um fator determinante para entender a personalidade “forte” do seu filho adolescente: o cérebro dele.

Como o cérebro de um jovem funciona?

Ele se irrita fácil, revolta-se com aspectos normais do cotidiano, bate a porta do quarto, age com impulsividade, enxerga as figuras autoritárias como inimigas etc. Esse é o estereótipo do adolescente que todos nós conhecemos e amamos, porém, não entendemos.

Contudo, não se preocupe. Ele não foi mordido por uma aranha radioativa, e nem trocado por um sósia revoltado. O cérebro dele é que está mudando e, junto a ele, seu comportamento e respostas automáticas às situações do cotidiano também.

Acontece que a principal mudança da infância para a puberdade é que, na segunda, as conexões neurais não utilizadas na parte do pensamento e processamento do cérebro são “podadas”. Ao mesmo tempo, outras conexões, que ele julga mais importantes, são selecionadas e fortalecidas. Essa é a maneira que o órgão se comporta para ficar cada vez mais eficiente e adaptado para a vida adulta. É como se ele dissesse: “Ou você usa essa informação, ou eu a jogo fora, entendeu?”.

Mais emoção, menos razão

Esse processo de poda neural começa na parte de trás do cérebro, enquanto a parte da frente (córtex pré-frontal) é remodelada por último. A título de curiosidade, o córtex pré-frontal é a parte do cérebro que toma as decisões, que é responsável pela capacidade do seu filho de planejar e pensar nas consequências das ações, resolver problemas e controlar impulsos. E olha que cilada: as mudanças nessa parte tão importante do nosso corpo continuam até início da idade adulta.

Aí, enquanto o córtex pré-frontal ainda está em desenvolvimento, os adolescentes podem contar com uma parte do cérebro chamada amígdala para tomar decisões e resolver problemas. Só que essa belezinha, por sua vez, está diretamente associada a emoções, impulsos, agressões e comportamentos instintivos.

Tanta coisa foi explicada em tão poucos parágrafos, né? Resumindo: o cérebro dos adolescentes funciona diferente dos adultos quando o assunto é tomar decisões ou resolver problemas. Suas ações são guiadas mais pela amígdala emocional e reativa, e menos pelo córtex frontal lógico e ponderado.

Além do cérebro, o que mais pode comprometer a saúde mental na adolescência?

Pesquisas também mostraram que a exposição a drogas e álcool durante a adolescência pode alterar ou atrasar o desenvolvimento do córtex pré-frontal.

Além disso, existem todas aquelas questões que já entendemos com mais propriedade, como:

  • mudanças no corpo (crescimento irregular, aparecimento de espinhas, início da menstruação para as meninas, o despertar da sexualidade etc);
  • chuva de hormônios;
  • maior exposição a conteúdos impróprios (TV, revistas, celulares etc);
  • acesso constante e não monitorado à internet;
  • conflitos internos;
  • entre outros.

Para saber um pouco mais sobre esses fatores, dê uma lida em nosso texto sobre suicídio na adolescência. Lá, você vai entender todos os fatores de risco que os jovens sofrem até recorrerem a ele.

A fragilidade da saúde mental na adolescência: uma visão geral

Em todo o mundo, estima-se que 10 a 20% dos adolescentes vivenciem, durante a puberdade, algumas condições de saúde mental. Porém, pelo fato dessa fase já ser complicada por natureza, elas continuam subdiagnosticadas e subtratadas.

Sendo assim, os sinais de problemas de saúde mental na adolescência podem ser ignorados por vários motivos, como a falta de conhecimento ou conscientização sobre o assunto, ou até mesmo preconceito.

É por isso que estamos aqui. Chegou o momento de conversarmos sobre os distúrbios emocionais mais comuns na puberdade. Vamos lá?

Os problemas psicológicos mais comuns na adolescência

Transtornos de ansiedade

São caracterizados por sentimentos de inquietação excessiva, preocupação e medo, e ocorrem em aproximadamente 32% das crianças de 13 a 18 anos. São alguns exemplos que incluem esse quadro:

  • Transtorno de Ansiedade Generalizada: preocupação persistente e excessiva com várias coisas diferentes. As pessoas com esse tipo de transtorno podem antecipar um desastre, ou se preocuparem excessivamente com dinheiro, saúde, família, trabalho etc;
  • Transtorno de Estresse Pós-Traumático: é uma condição de saúde mental desencadeada por um evento aterrorizante já experimentando ou testemunhando. Os sintomas podem incluir flashbacks, pesadelos e ansiedade severa, além de pensamentos incontroláveis ​​sobre o mesmo;
  • Transtorno de Ansiedade Social: é um dos transtornos de ansiedade mais comuns. Nele, as pessoas tendem a se sentir bastante nervosas ou desconfortáveis ​​em situações sociais. As mãos suam, o corpo treme e o raciocínio lógico parece não funcionar corretamente. Isso ocorre porque elas costumam ficar muito preocupadas em fazer qualquer coisa que seja embaraçosa ou humilhante, ou ainda que os outros pensem algo de errado delas;
  • Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC): é um distúrbio comum, crônico e duradouro, no qual uma pessoa tem pensamentos (obsessões) e comportamentos (compulsões) incontroláveis ​​e recorrentes. Eles costumam girar em torno de aspectos do cotidiano como limpeza, organização, segurança etc;
  • Transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH): é caracterizado por desatenção contínua e/ou impulsividade por hiperatividade. Ocorre em aproximadamente 9% dos adolescentes de 13 a 18 anos de idade;
  • Fobia: é um medo irracional de algo ou alguma coisa. A palavra em si vem da expressão grega “phobos”, que significa medo ou horror. As mais comuns são hidrofobia (medo de água), aracnofobia (medo de aranhas), claustrofobia (medo de lugares cheios/apertados) e acrofobia (medo de altura).

Depressão

O humor deprimido afeta pensamentos, sentimentos e atividades diárias, incluindo comer, dormir e trabalhar. Ocorre em aproximadamente 13% das crianças de 12 a 17 anos, e inclui os seguintes exemplos:

  • Transtorno depressivo maior (depressão maior): o tipo mais comum de depressão. Causa um sentimento persistente de tristeza e perda de interesse. Ele afeta como você se sente, pensa e se comporta, e pode levar a uma variedade de problemas emocionais e físicos;
  • Transtorno depressivo persistente: também conhecido como Distimia, esse transtorno é uma forma contínua (crônica) e longa de depressão. Costuma durar anos e pode interferir significativamente nos relacionamentos sociais e aprendizado;
  • Transtorno disfórico pré-menstrual: provoca sintomas emocionais e físicos similares à TPM, porém, estes são verdadeiramente debilitantes e interferem diretamente no cotidiano da mulher, incluindo a escola, a vida social e os relacionamentos interpessoais.

Distúrbios alimentares

São caracterizados por comportamentos alimentares extremos e anormais. Ocorrem em quase 3% das crianças de 13 a 18 anos de idade e possuem os seguintes tipos:

  • Bulimia nervosa: é um distúrbio alimentar psicológico e grave, com risco de vida, caracterizado pela ingestão de uma quantidade grande de alimentos em um curto período de tempo, seguida por uma tentativa de evitar ganho de peso ao eliminar o que foi consumido. Os métodos de expulsão dos alimentos incluem vômito forçado, uso excessivo de laxantes ou diuréticos e períodos extremos ou prolongados de exercício;
  • Anorexia nervosa compulsiva: a pessoa que luta com esse tipo de distúrbio alimentar geralmente vomita depois de comer, e se alimenta pouco. Isso alivia o medo de ganhar peso e compensa parte da culpa por ter ingerido alimentos proibidos ou altamente restritos. Pacientes com esse quadro sofrem de perda de peso excessiva e não identificada pelo próprio e, consequentemente, fraqueza e desnutrição;
  • Anorexia nervosa restritiva: o jovem que sofre de anorexia restritiva é extremamente disciplinado. Ele restringe a quantidade e qualidade dos alimentos que come, e sabe exatamente quantas calorias cada um deles têm. Dessa forma, o paciente consome muito menos comida do que o necessário.

E, por fim…

Além de depressão ou ansiedade, os adolescentes com distúrbios emocionais também podem sofrer de irritabilidade, frustração ou raiva excessivas. Os sintomas podem se sobrepor uns aos outros, com mudanças rápidas e inesperadas de humor e explosões emocionais.

Adolescentes mais jovens também podem desenvolver sintomas físicos relacionados à emoção, como dor de estômago, dor de cabeça ou náusea.

Para saber como lidar com todos esses problemas, te convidamos, mais uma vez, a ler nosso conteúdo sobre suicídio na adolescência. Afinal, além de ser um assunto extremamente relevante, tem todas as informações que você precisa para amparar seu filho psicologicamente.

Um abração e até a próxima!

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